Morros íngremes, colheita manual e pequenas propriedades familiares marcam a paisagem do leste de Minas Gerais. Na leitura de Alfredo Moreira Filho, empresário e fundador do Grupo Valore+, que teve Viçosa como uma das paradas de seu percurso, a cafeicultura da região conhecida como Matas de Minas mostra como agricultores de pequeno porte podem conquistar espaço no mercado ao investir em qualidade e identidade de origem.
O café de montanha mineiro enfrenta desafios próprios, como a dificuldade de mecanização e os custos elevados, mas vem ganhando reconhecimento nacional e internacional. Entenda, nos tópicos a seguir, como essa produção se formou, o que a torna especial e quais caminhos ajudam a valorizar o trabalho dos produtores.
Um café que nasceu na Mata Atlântica
A região das Matas de Minas reúne cerca de 63 municípios no leste de Minas Gerais, em grande parte na Zona da Mata e em parte no Vale do Rio Doce. Como o nome indica, o território está inserido no bioma Mata Atlântica, com relevo acidentado, clima ameno e chuvas que favorecem o cultivo do café.
O grão chegou à região ainda no século XIX, a partir da expansão das lavouras do Vale do Paraíba do Sul, e se consolidou ao longo do século seguinte como o principal produto da agricultura local. Hoje, as Matas de Minas respondem por cerca de um quarto do café produzido no estado, que é o maior produtor do país.
Grande parte dessa produção vem da agricultura familiar, em propriedades pequenas onde o café convive com outras culturas e com fragmentos de floresta. Conforme explica Alfredo Moreira, essa combinação de relevo, clima e trabalho familiar dá ao café da região características muito próprias.
Os desafios da cafeicultura de montanha
A chamada cafeicultura de montanha é praticada em terrenos com declividade elevada, muitas vezes acima de 25%. Nessas condições, o uso de máquinas é limitado, e boa parte do trabalho, da colheita à poda, precisa ser feita manualmente.
Isso eleva os custos de produção e torna a atividade mais dependente de mão de obra, que nem sempre está disponível. Em comparação com regiões planas, como o Cerrado mineiro, onde a mecanização é ampla, os produtores de montanha precisam encontrar outras formas de competir.

Segundo levantamentos do setor, as regiões de montanha de Minas Gerais, incluindo o Sul de Minas e as Matas de Minas, concentram cerca de 70% da produção cafeeira do estado e envolvem centenas de milhares de famílias. No olhar de Alfredo Moreira Filho, a persistência desses produtores é um exemplo de como a adaptação ao ambiente pode transformar limitações em diferenciais.
A aposta na qualidade e na origem
Diante dos custos mais altos, muitos produtores passaram a investir na qualidade da bebida. Pesquisas conduzidas na Universidade Federal de Viçosa avaliaram como fatores como altitude, variedade e posição da lavoura na encosta influenciam o sabor do café, ajudando os agricultores a aproveitar melhor as condições de cada propriedade.
A região também conquistou o registro de Indicação Geográfica Matas de Minas, que reconhece a origem e as características do café produzido ali, exclusivamente da espécie arábica. Produtores locais passaram a participar de concursos de qualidade nacionais e internacionais, chegando a figurar entre os finalistas de premiações reconhecidas no setor.
Instituições como a própria Universidade de Viçosa, que mantém um centro dedicado ao café da região, e a Empresa Estadual de Pesquisa Agropecuária contribuem com conhecimento técnico e apoio aos produtores. Alfredo Moreira Filho enfatiza que a ligação entre pesquisa e produção é um dos pilares do desenvolvimento rural.
Caminhos para o futuro
Para seguir competitivos, os cafeicultores de montanha apostam em estratégias como a organização em cooperativas e associações, a certificação de boas práticas, o beneficiamento cuidadoso dos grãos e a venda direta de cafés especiais a torrefações e consumidores. O turismo rural também surge como oportunidade, com roteiros que levam visitantes a conhecer fazendas, acompanhar a colheita e degustar cafés locais.
Ao mesmo tempo, a conservação da Mata Atlântica e o manejo adequado do solo são fundamentais para garantir a sustentabilidade das lavouras em áreas de relevo acidentado. O café das Matas de Minas mostra que qualidade, origem e trabalho familiar podem caminhar juntos para gerar renda e reconhecimento, pondera Alfredo Moreira.

