O Brasil ainda opera o rastreamento do câncer de mama num modelo chamado oportunista: a mulher só chega à mamografia se procurar o sistema de saúde por conta própria, ou se um profissional lembrar de solicitar o exame durante outra consulta. Não existe convite formal, nem uma lista de mulheres na faixa etária alvo sendo chamadas, uma a uma, para comparecer.
Esse é o ponto que Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, ex-secretário de Saúde e médico radiologista, costuma trazer para o centro do debate público sobre prevenção. Segundo ele, a diferença entre esperar a mulher aparecer e ir ativamente atrás dela não é um detalhe administrativo, é o que separa um programa de rastreamento eficaz de um conjunto de exames isolados.
O que muda?
No modelo organizado, o sistema de saúde define previamente a população-alvo, mantém um cadastro dela e envia convites nominais, com data e local marcados, para cada mulher elegível. O acompanhamento continua depois do exame: quem tem resultado alterado é rastreado dentro do próprio sistema até concluir a investigação.
No modelo oportunista, cada etapa depende de iniciativa individual. A mulher precisa saber que deve fazer o exame, lembrar de marcá-lo, conseguir vaga e, caso o resultado dê alterado, voltar a buscar atendimento por conta própria. Cada uma dessas etapas é um ponto onde alguém pode se perder do processo, sem que ninguém do outro lado perceba a ausência.
Por que a cobertura parece boa e não é?
Indicadores nacionais costumam mostrar taxas de cobertura próximas do recomendado, o que sugere um cenário funcional. O problema é que essa média esconde desigualdade regional expressiva: em algumas áreas, a mamografia é rotina; em outras, praticamente inexistente, e a média nacional dilui essa distância.

Vinicius Rodrigues aponta que esse tipo de indicador médio é justamente o que mais engana gestores de saúde, porque ele mostra que “o sistema está cobrindo a população”, quando, na verdade, está cobrindo bem quem já tinha acesso fácil e mal quem sempre teve mais dificuldade. A cobertura nacional, sozinha, não revela quem ficou de fora.
Uma mudança que já começou, ainda que devagar
Alguns estados e municípios brasileiros já testam versões de rastreamento organizado, com cadastro ativo da população-alvo e convocação nominal, especialmente em programas municipais de referência. Os resultados desses projetos-piloto indicam custo-efetividade melhor do que a estratégia oportunista, além de maior detecção em estágios iniciais da doença.
Ainda assim, a expansão para o restante do país esbarra em barreiras conhecidas: falta de coordenação entre níveis de gestão, limitação orçamentária e dificuldade logística para manter um cadastro populacional atualizado. Substituir um modelo que já existe por outro que exige infraestrutura nova não acontece por decreto; exige tempo e continuidade entre gestões.
O que a mulher pode fazer enquanto o sistema não muda?
Enquanto o modelo organizado não chega a todo o território nacional, a responsabilidade de iniciar o processo continua, na prática, com a própria mulher. Isso significa não esperar um convite que talvez nunca chegue e procurar a unidade de saúde para marcar o exame dentro da própria faixa etária recomendada.
Para Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, entender essa lacuna é o primeiro passo para não depender dela. Conhecer o modelo que o próprio sistema de saúde adota ajuda a mulher a perceber que, se ninguém vai chamá-la, cabe a ela dar o primeiro passo, e que esse passo continua sendo, hoje, a diferença entre ser encontrada cedo ou tarde pela doença.


